26 E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra.

Façamos. O “haja” impessoal (ou seus equivalentes) dos sete atos criativos anteriores é substituído pelo “façamos” pessoal. Somente na criação da humanidade é anunciada de antemão a intenção divina. A fórmula “e assim se fez” é substituída por uma bênção tríplice. Nestas formas, o narrador põe a humanidade mais perto de Deus do que o restante da criação.

Ver também 3.22; 11.7. Têm-se sugerido várias referências para o “nós”. A interpretação cristã tradicional que representa uma pluralidade dentro da deidade conta com algum endosso textual e satisfaz a teologia cristã da Trindade (Jo 1.3; Ef 3.9; Cl 1.16; Hb 1.2).

Que Deus é uma pluralidade, é corroborado pela menção do Espírito de Deus em 1.2, e o fato de que a própria imagem é uma pluralidade. Esta interpretação também explicaria as nuanças no texto entre o singular e o plural. A dificuldade primária com esse ponto de vista é que os outros quatro usos do pronome plural com referência a Deus (3.22; 11.7; Is 6.8) não parecem referir-se à Trindade.

Sendo assim, os que não acreditam da expressão façamos como uso relacionado a Trindade creem que todos esses usos do pronome é que Deus está se dirigindo aos anjos ou à corte celestial (cf. 1Rs 22.19-22; Jó 1.6; 2.1; 38.7; Sl 29.1-3; 89.5, 6; Is 6.8; 40.1-6; Dn 10.12, 13; Lc 2.8-14). O texto original diz :

וַיֹּאמֶר VAYOMER E disse אֱלֹהִים ELOHYM Deus: נַעֲשֶׂה NAASEH Façamos אָדָם ÅDÅM o homem בְּצַלְמֵנוּ BËTSALËMENU à nossa imagem, כִּדְמוּתֵנוּ KIDËMUTENU conforme à nossa semelhança;

Esta passagem destaca dois fatos im­portantes. O homem compartilha sua natureza tanto com os animais quanto com Deus. Ele foi criado no mesmo dia em que os animais de ordem mais ele­vada foram formados, e, desta forma, está aparentado com eles, mas ele tam­bém possui a imagem de Deus. Esta imagem de Deus no homem é carac­terística de todos os homens, mas não dos animais.

Mais uma vez, a repetição múltipla - cinco vezes nesses dois versículos - da observação conforme o seu tipo funciona como um lembrete enfático de que, enquanto Deus é soberano, não é totalitarista em seu governo, mesmo em relação às criaturas que não lhe refletem a imagem, como o fazem os humanos.

Deus projetou, formou e deu vida a miríades de espécies, mas dotou-as de poderes procriadores, trazendo-as a uma parceria consigo na existência em curso da sua boa criação.

A expressão repetida conforme o seu tipo também enfatiza a importância da ordem raciocinada e razoável que Deus estabeleceu na e para a criação. É possível ver, aqui, uma fundamentação para o ensino bíblico subsequente sobre a ordem da(s) relação(ões) divina(s) inerente(s) à realidade e à experiência da santidade.

Embora possamos caracterizar essa ideia como uma interpretação “tipológica”, a repetição da frase indica que essa era uma preocupação legítima do narrador. Notamos essa ênfase sem pedir-lhe que suporte mais peso teológico do que o pretendido pelo autor; isso é uma reflexão, não um dogma.